sexta-feira, 24 de julho de 2015

FRAGMENTO DE PROSA

     Eu não entendo como as pessoas conseguem achar tantos defeitos, e criar tantas desavenças umas com as outras. Eu, no meu caso, não consigo me desentender com ninguém, gosto de quase todo mundo e me dou bem com todos.
     "- Talvez se você prestasse mais atenção às pessoas ao invés de ignorá-las conseguiria ter sentimentos mais amplos por elas!"
     ...
     Acho que vou continuar a ignorá-las.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

NINA

    - Ora, vejo que você  arranjou uma gata, Cesar!
   - Pois é. Na verdade foi minha esposa quem a trouxe para casa.
   - Não diga! – É linda.
   - Sorte, não é? Ellen a encontrou no estacionamento da Universidade onde leciona, já  havia visto varias vezes, mas só agora teve coragem de ficar com ela. Se chama Nina.
   - Belo nome, muito singelo. Ellen está apaixonada?
   - É mais como um mascote, ela trouxe para casa, cuidou dela, alimentou,  deu carinho e a natureza fez o resto.
   - Ela é novinha, vai se adaptar fácil. E quanto a você, como entra nisso?
   - Bom, no começo eu não quis me envolver,  mas, quando nos demos conta ela já estava entre nós dois na cama. O legal é que tudo aconteceu naturalmente.
   - E Ellen não ficou com ciúmes? Digo, pelo jeito ela já esta apaixonada.
   - Na verdade, quando estamos os três juntos, não. Mas há alguns dias, Ellen fez uma viajem pela universidade e Nina e eu acabamos saindo juntos... só nós dois. A principio eu não vi nada demais, estamos todos juntos, mas eu não tive coragem de falar para Ellen quando ela voltou.
   - Entendo, é melhor assim... Quer dizer então que ela está aqui definitivamente?
   - Ó, sim. Ela tem sua própria  vida, as vezes sai de noite e só volta de manhã. Nós não nos metemos, só garantimos que ela fique limpa e saudável, afinal é ainda muito jovem e tem muita energia.
   - Os vizinhos não estranharam? Afinal, sempre foram só vocês dois.
   - Aqui no prédio eu nunca ouvi falar nada, mas também isso é recente. No entanto, não podem fazer nada além de falar, não há nada que nos impeça de tê-la.   
   - Bom, tudo o que eu tenho a dizer é que você é um homem de sorte, uma bela esposa com uma gatinha a tiracolo. Ha-ha-ha. Um brinde a isso...
   -Vamos, venha comigo, vou lhes apresentar : - Ellen, traga Nina para conhecer o Álvaro.
   - Olá Ellen, como vai? 
   - Bem Álvaro, e você?...
   - Nina, este é o doutor Álvaro, um grande amigo meu.


   - Olá doutor, é um prazer conhecê-lo.
   

quarta-feira, 8 de julho de 2015

MORAL DA HISTÓRIA

          Ela caminha pela calçada chapinhando poças da chuva que acabara de cessar. Cabisbaixa carrega  uma garrafa de vinho tinto dentro de uma sacola de papel pardo, ela vai para o seu terceiro encontro com esse cara, um jantar em sua casa, ela gosta dele e se tudo der certo, vão transar.
          Está frio, ela veste uma blusa de lã preta
          um cachecol de lã preto( mas com pontos diferentes, ora),
          um jeans preto
          uma bota de couro preta
          e óculos de armação de cobre.
Tem um corpo atraente apesar de estar um pouquinho acima do peso, o que realça sua bunda e suas coxas. Os cabelos repartidos ao meio e cortados pouco acima dos ombros cobrem as laterais de seu rosto, tem maçãs salientes e rosadas apesar da pele morena. olhos grandes e bem desenhados, o nariz sob os óculos é ligeiramente arrebitado o que faz com que o lábio superior sobressaia ao inferior que compensa isto sendo mais carnudo. Apesar de tudo não chama a atenção. Talvez devesse deixar o cabelo crescer, trocar os óculos, ou mostrar mais pele, mas o que realmente importa é que um cara sortudo a viu e essa noite ele irá despi-la de todas essas artificialidades e descobrir toda a beleza que ela insiste em ocultar.  
   Isto me faz pensar: se eu fosse Esopo qual seria a moral da história?

O RIO CORRE (OU NOSSAS VIDAS)

O rio corre
e, desde sua nascente, 
gorgolejando e contornando obstáculos
parece ser impossível conter sua corrente
que a tudo faz florescer.

O rio corre
mas não corre por vontade própria
sua aparência indomável, incontrolável
é resultado de sua fraqueza:
a incapacidade de se governar.

O rio corre
acumula suas águas até que o terreno
incapaz de contê-las
o força a descer no primeiro declive
perdendo assim, o controle de si mesmo.

O rio corre
e quando inunda uma região
causando medo e destruição
não é por sua "fúria incontrolável"
mas da chuva que o violentara. 

O rio corre
até ser julgado útil e represado, 
exigem de si o máximo e sugam o que podem,
mas se seu caminho é um estorvo
então é logo desviado. 

O rio corre
desce vertiginosamente impotente
arrastado por caminho inevitável
até perder toda sua doçura 
absorvido pelo mar.


quinta-feira, 7 de maio de 2015

          A mosca está na teia
                        Ela se sacode
E a aranha espera.

Sempre Bem.

Hoje eu conheci um cara,
alto, sorridente,
vestia camisa e sapatos,
o tipo administrador ou
empresário...

Perguntou-me, todo sorridente,
como eu estava,
só por educação, é claro,
hábito.
"Bem" - respondi como uma flatulência.
Então disse-me, todo empolgado,
que sempre esta bem,
sempre feliz.
"Esse é o segredo!"
Concluiu ele, dando saltinhos.

Achei esse cara um saco!

"Sempre bem",
imagine o desperdicio humano
de estar sempre bem.
Todo o potencial de
sentimentos
que nos proporciona
nossa cérebro
nossa vida
e o mundo
pra estar sempre bem.













sábado, 14 de março de 2015

Há sempre muita água!

Nuvens turbulentas
Aglomeram-se num céu rabugento
Soando como um motor macio.
A tromba d'água
Despenca
Em três cones consecutivos
Que inundam ruas,
Arrasam casas,
Desbarrancam encostas
E engolfam pessoas.
Era preciso segurar as paredes,
Mas a água invadia ruidosa pelas janelas.

Há água em todo lugar!

Água em abundância
Precipitando-se turva e turbulenta.
Água insalubre
Transbordando rios e perturbando a terra.

Há sempre muita água!

Águas turvas
Que esmorece o coração e o faz tremer.
Águas que,
Mesmo terríveis,
São sedutoras e atraentes,
Quase que irresistíveis,
Assim como o desconhecido
E te arrastam
Para suas profundezas escuras
De onde é impossível voltar;
Acho que era disso
Que falavam os marinheiros e pescadores
Quando cantavam histórias sobre
Sereias.
Arrastados e afogados
Nos embustes da calmaria
Quando é mais propensa à mente vacilar
Diante, não do seu canto,
Mas de seu silêncio abismal.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

ISTO É DIRE STRAIT!



Foi no primeiro verão do século XXI, a noite estava agradável com um ar fresco e úmido que a deixava confortavelmente monótona, era por volta de onze e meia da noite e, apesar de ser uma sexta-feira, não havia ninguém na rua. Eu caminhava vagarosamente para casa, mas sem vontade de chegar. Por isso, no cruzamento onde eu deveria virar à direita, virei para a esquerda, pois percebi que o Poente ainda estava aberto. O Poente era um bar que eu costumava frequentar com um amigo onde íamos jogar bilhar e tomar umas cervejas, mas naquela noite eu estava sozinho. Entrei por seu grande pátio onde ficavam as duas mesas de bilhar e algumas mesinhas com os guarda-sóis fechados, as mesas de bilhar estavam cobertas por causa da chuva que havia caído a menos de uma hora. Lá do balcão Jorge, o dono do bar já me cumprimentava, com seus olhinhos miúdos atrás dos óculos sem armação nas lentes e um vasto bigode preto que centraliza toda a atenção do seu rosto. O Poente mais parecia um pequeno galpão que fora transformado em bar, tinha o pé-direito muito alto sem forro e todo o madeiramento do telhado era envernizado, havia uma ferradura pendurada e um apanhador de sonhos na viga central, o balcão ficava do lado esquerdo de quem entra deixando as mesas espalhadas até o fundo do bar onde há os banheiros e um mezanino aparentemente inútil. No inicio o Poente era muito mal frequentado sendo o reduto de traficantes e toda a corja que eles trazem consigo, dizem que até uma morte o Poente tem abrigado em seu interior, depois disso (e há quem diga do amor) Jorge conseguiu limpar o lugar e transformá-lo em um lugar tranquilo. 
     Sentei-me no balcão e perguntei se ainda dava pra tomar uma cerveja, serviu-me prontamente mostrando que ainda havia um casal no fundo do bar sob o mezanino. Conversavam de mãos dadas com os rostos muito próximos um do outro e sorrisos apaixonados abobalhando o ambiente. Sendo assim, estando eu com fome, pedi para Jorge me fazer uma porção de calabresa para acompanhar minha cerveja. Ficamos conversando futilidades enquanto ele preparava a minha porção com muita cebola cortada em rodelas grossas, serviu-me com um prato de pães em rodelas e outra cerveja, encostou jogando um pano nos ombros e voltamos a conversar.
     - E então, como é que vão as coisas? – Perguntou-me para iniciar uma conversa.
     - Fui demitido! – Respondi enfiando uma calabresa e três rodelas de cebola na boca. Senti o corpo de Jorge estremecer.
     Quando alguém pergunta “como vai?” o máximo que esperam é: “Tudo bem”, esse é o intuito puramente especulativo da pergunta para estabelecer contato. Ninguém quer realmente saber como você está. Jorge teve aquele angustiante arrependimento repentino que se sente nesse tipo de situação, quando você deseja imediatamente não ter feito tal pergunta. Mas no meu caso o angustiante arrependimento repentino foi injustificado, pois não comecei a chorar nem a me lamentar desesperadamente pela perda do emprego. Expus o caso da minha demissão com sincera tranquilidade apesar dos dez anos em que me dediquei à empresa e o inevitável vinculo que tal tempo acaba por criar, mas a verdade é que eu estava realmente cansado de tudo aquilo e eu já odiava meu trabalho e toda aquela falsa filosofia empregada pelos patrões a qual nem mesmo eles acreditam, apenas regurgitam o que tiveram que engolir.
     Eu não gostei de nenhum dos meus empregos! – exclamou Jorge quase que reflexivo – Foram todos por pura necessidade.
     Beberiquei minha cerveja enquanto Jorge explicava que o único trabalho que lhe agradou foi O Poente, mas talvez não por muito mais tempo, já estava ali há muitos anos: “Por mais que você goste de calabresa vão se tornar insuportáveis se as comer todos os dias.” Ilustrou enquanto eu estava com a boca cheia delas; no entanto Jorge não soube dizer-me o que realmente gostaria de fazer. “Talvez nenhum trabalho me faça feliz. Somos mercenários.” – Ele conclui. O que me levou a lembrar que eu estava realmente preocupado está manhã com todos aqueles gráficos, metas, redução de custos e aumento do lucro, mas a partir do momento em que me deram o pé-na-bunda a companhia poderia falir, não era mais problema meu.
     O casal se levantou e um rapagão negro vestido como um jogador de basquete pagou a conta e foram embora abraçados.
     Foi nesse momento, com a saída do casal, que apareceu um homenzinho raquítico e mal-acabado enfiando a cabeça sorrateiramente como se estivesse com medo de estar atrapalhando algo ou de ser um incomodo. Pediu meio encabulado, era muito acanhado, se Jorge poderia lhe dar uma pinga. O que lhe foi respondido com um vozeirão grave e um aceno de mão brusco: Entra “Ferpa”! Você não quer que eu lhe sirva ai, né? – Ele entrou cabisbaixo sem nos encarar, como se devesse algo para alguém ou fosse inferior, deteve-se mais uma vez aproximando-se de nós somente após o insistente chamado do dono do bar. Tratava-se de um sujeito monocromático, cabeçudo, de olhos inchados; usava uma calça suja e surrada e um chinelo Havaianas de solado gasto. Tinha o apelido de “Ferpa”, variante errônea de farpa, devido sua magreza e pequenez. Carregava um violão nas costas que era quase do seu tamanho fazendo-o envergar.
     Pediu mais uma vez que Jorge lhe vendesse uma pinga a qual ele pagaria noutro dia ignorando a plaquinha de madeira pendurada na parede alertando que “NESTE ESTABELECIMENTO NÃO SE VENDE FIADO”.
     - Toca uma musica ai pra gente. – Pediu Jorge, mas ele balançou a cabeça negativamente dizendo meio desajeitado que estava com pressa, enfim... – Toca uma musica ai rapaz! – Insistiu Jorge. – Se tocar eu te dou a pinga, por conta da casa. – Meio que a contragosto Ferpa puxou o violão pra frente de si ajeitando-o na coxa e posicionando os dedos longos e calejados de unhas encardidas e pontas feridas, respirou contrariado e timidamente começou a dedilhar as cordas. Confesso que até aquele momento a minha descrença era visível em meu rosto tolo. Ferpa afinou uma corda, dedilhou novamente e então, pra minha total e absoluta surpresa aquele improvável homem começou a tocar com determinação e paixão, e os sons emitidos pelo violão eram tão belos e precisos que pareciam não condizerem com os movimentos dos dedos nas cordas. Era como se de repente aquele sujeito obscuro e encurvado que mal nos apresentara o seu rosto fosse possuído por alguma entidade celestial, e erguendo-se ereto começou a cantar com sua voz rouca, porem melodiosa num inglês irrepreensível e fluente, cantou a primeira estrofe e logo emendou, sem perder o tempo nem o tom, a mesma estrofe só que em português impressionando-me ainda mais, cantou o resto da canção num estilo próprio sem imitar a voz nem o estilo do original, já que se tratava de uma musica famosa tanto que eu nem a reconheci e quando terminou nos olhou pela primeira vez e disse como quem sabe que fez um ótimo trabalho: - Isto é Dire Strait!
     Mas então, apagou a si próprio, como que se recolhendo a própria sombra, revolvendo-se para dentro de um casulo obscuro. Passou rapidamente a mão pelo balcão tomando a cachaça que lhe fora prometida, jogou o violão nas costas como quem joga um fardo pesado demais e deu de ombros sem mais nada dizer desaparecendo tão rápido quanto um sonho ou uma história de fantasma.
     Jorge olhou-me nos olhos, mas nada disse. Quando todas as palavras existentes já foram ditas, há momentos em que o melhor é calar-se.
     Fui para casa desejando não encontrar pessoa alguma que pudesse falar comigo, desejando que nada mais fosse dito, que nenhuma TV estivesse ligada e que nenhuma outra musica fosse tocada. Fui atendido, eu não precisava ouvir mais nada naquela noite.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

A EPOPEIA DO ARCO OCIDENTAL - E-BBOK (PDF) A VENDA NO CLUBE DE AUTORES

 Pessoal, meu livro, A Epopeia do Arco Ocidental está disponível no site Clube de Autores em versão ebook por apenas R$ 16,14 COMPREM PELO LINK ABAIXO.

 A Epopeia do Arco Ocidental

Sinopse

Os antigos deuses e suas criaturas, que outrora habitavam a Terra, foram exilados em um novo mundo, mas junto com eles homens também partiram. Agora, após séculos, um mago recebe um estranho chamado em sonho para buscar uma antiga relíquia, mas o que esse mago não esperava era que isso desencadearia um perigo mortal.
Em um mundo distante um homem renasce sob a influência de um demônio, e se erguendo como rei, domina todas as Terras do Norte. Agora, Drakon, Senhor do Norte, pretende estender seus domínios sombrios para todos os povos do Arco Ocidental.
Mas os Homens Livres do Arco Ocidental não serão subjugados tão facilmente, e liderados por Adel Humberate, rei de Forte Verde, e pelo mago Altimeom, travarão uma guerra sangrenta que durará anos. Mas os homens não estão sozinhos nessa empreitada contra um mal desconhecido que se ergue em suas terras, e junto a eles dois bravos povos se unirão: os fortes panaceus e os poderosos nefelins, e juntos defenderão a liberdade dos povos do Arco Ocidental. Mas Drakon é poderoso e este, não quer apenas dominar essa terra, seu maior intento é se tornar um deus.
Um rei determinado a tudo para defender a liberdade de seu povo e o amor de uma mulher. Deuses, dragões, gigantes e um enorme exército de lobisomens se confrontam numa terra cheia de mistérios e magia.
Tudo isso você verá no primeiro livro de Wagner de Souza. Uma aventura fantástica repleta de seres mitológicos e bravos guerreiros. Escolha o seu lado e se prepare para a guerra.


A Epopeia do Arco Ocidental



terça-feira, 15 de julho de 2014

NA COMPANHIA DA SOLIDÃO

Logo que entrou, notou a presença
Sentado em seu quarto
Numa poltrona de canto.
Como fazia frio
Naquela madrugada!

O capuz que cobria sua cabeça
Fazia com que tudo em baixo
Fosse duma escuridão densa
E profunda
Duma presença sem rosto.

Ela sentia seus olhos,
Não podia vê-lo,
Mas sentia que a observava.
Sentia sua escuridão
Sua presença imaterial.

De onde estava ela gritou:
Qual é cara?!
O outro continuou imóvel
Olhando-a. Sugando-a
Para dentro de sua escuridão

Sentou-se na cama desarrumada
Encolhida e acuada
Com aqueles olhos sobre si
Tomados pelo negrume
Que havia sob o capuz,
No estático controle.

“Perdoe-me mãe,
Por voltar agora para sua cama
Perdoe-me pai,
Por ser tão covarde.”
Desculpou-se aflita.

Foi então que um risco vermelho
Cortou o horizonte
E tingiu o céu todo de rosa
E azul-bebê
Revelando quem a assombrava.

Que vergonha!
Uma blusa vazia,
Jogada e esquecida
Na velha poltrona
Havia a aterrorizado.

Observou em silêncio
A claridade reveladora
Que entrara naquele capuz
Vazio...

E sentiu-se sozinha. 

sexta-feira, 20 de junho de 2014

INEVITÁVEL



     - Por que se esquivam de mim se inevitável sou?
     - Ainda não compreenderam em mim o melhor que lhes pode acontecer. A grande recompensa!
     - Será o meu cão o causador de tanto terror, ou Caronte o motivo? Ainda temem tanto assim o escuro, para a minha chegada ser tão indesejada? Tolos, não é no escuro que melhor descansam seus olhos e suas mentes? Pois então, eu sou a noite de sono mais sublime. O descanso mais profundo de suas superficialidades. Então por que correm de mim, se eu sou a linha de chegada. Qual o motivo de tentarem esconder-se, se aqui encontrarão o mais perfeito de todos os esconderijos...
     - Grandes, mas poucos, foram os sábios que me reconheceram como verdadeiramente sou: Jó, que me desejou ansiosamente o afago. Salomão, que mesmo tendo tudo, entendeu o quão sou irrefutável. E Camus reconhecendo-me como a mais importante das escolhas.
     - Muitos tentaram ludibriar-me, mas sem sucesso, veja Sísifo em seu tormento sem fim e sem propósito assim como a vida de todos; o talentosíssimo Orfeu que resgatar a amada veio, encantando-nos e comovendo-nos com sua música. Tentaram trocar de lugar com suas imagens pintadas em tela encantada; ousaram pactos absurdos, diabruras e sortilégios. Vulgares! Arrogantes! Tentam adiar minha chegada. Desejam eliminar-me. Ora, os próprios sábios de Hélica já sabiam que tal coisa só prolongaria a angustia.
     - Quantos soberbos deuses não se sentiram impotentes ao se apresentarem a mim. Os vi daqui mesmo, frágeis e assombrados, arrastados com seus fiéis ou abandonados e esquecidos por eles. Quantos hábeis guerreiros com um golpe mortal que pensavam impossível deitaram as espadas e os escudos aos meus pés, ou mesmo valorosos heróis de tal maneira perturbados, pois nem se quer sabiam o que lhes acometera, pegos de surpresa, traídos ou iludidos por uma improvável imortalidade. Estrelas eu apaguei, assim como sonhos. Desestabilizei galáxias inteiras. Vi e verei ruírem civilizações que outrora se diziam indestrutíveis, reis que se julgavam eternos em ritos e comemorações com suas figuras sagradas de ouro e sangue e hoje nem mesmo constam seus feitos em meros livros de história; outros que tinham o nome pronunciado em sussurros envoltos por medo e glória, foram apagados sem nenhuma consideração especial ou grandes preparativos, todos arrastados por mim e por mim eliminados da existência assim como o Mar apaga as frágeis marcas na praia ou Éolo desfigura as dunas de areia. 
      - Colhi em abundancia o que não cultivei: da Titanomaquia ao Ragnarök; das sombras das muralhas de Ílion às muralhas de Jericó; dos vaidosos herdeiros de Abraão que tanto sangue derramam entre si; das fronteiras da Europa e das tribos da África... Ares, meu irmão, caminha opulento sobre a face fumegante da Terra e suas portas estão sempre abertas.
     - Pouco me importam as crenças, ou para quem oferecem suas orações e louvores. Pouco me importa de onde eles veem, ou qual a cor da pele que lhes cobrem, menos ainda o que fizeram de suas vidas; se reis ou servos, bons ou maus. Não me importo! Estou de braços abertos para todos que me procurarem assim como não aceito recusas. No entanto não tenham em mim esperanças vãs: recomeços, reencontros ou novas chances. Não! Tudo o que tenho a oferecer é a completa extinção da consciência. A evanescência.
     - Não espero nada de ninguém, nenhum agradecimento, nenhuma honraria ou subserviência, tão pouco temores ou louvores. Tudo o que quero é que quando chegar a hora abram suas portas, pois não há portas fechadas para mim. Recebam-me como bons anfitriões, pois não há como negar minha visita. Seja na guerra ou na paz, em dias de festa ou luto, sob o calor de Febo ou nos braços da Noite: eu sou as chamas que consumirá toda a existência, a espada do tempo que partirá o próprio Tempo, eu sou aquele que estará presente quando Caos reinar novamente e depois dele quando o último grão de areia for dissolvido e a ultima molécula desintegrada, eu sou o Grande Prêmio que será entregue a tudo e a todos e nada pode me negar.
     - Imortalidade e Eternidade são palavras sem significado.
    - Digo essas coisas a você, meu amor, coisas que não são ocultas ao seu entendimento, pois chegará o dia em que nem você será poupada. – Exclareceu assim Hades a Perséfone sentado em seu trono.

   - E quanto a você, “meu amor”, consumirá a si mesmo, assim como o sol e as estrelas, ou tem alguém, uma surpresa talvez, esperando por você no final? –  Perguntou Perséfone, mas Hades calou-se.

sábado, 26 de abril de 2014

A ESTRADA INFINITA de um ENTARDECER INFINITO



  
34.369 é a quilometragem indicada no painel do carro, mas não é verdade, pelo menos não agora, esse numero permanece inalterado há dias. Agora, deve ser muito mais, mas não me pergunte o quanto aumentou, pois não saberia dizer; nesses últimos dias venho rodando quase que sem parar, mas não se enganem o contador não quebrou. Não sei bem como explicar, mas algo aconteceu nessa estrada, algo me prendeu nela. Da ultima vez que me lembro, o GPS indicava, com sua voz feminina robótica, que faltava cinco quilômetros para eu sair na BR-040, mas isso, como eu já disse, já faz três ou quatro dias, e difícil dizer com exatidão a esta altura, onde nada funciona, nem o tempo.
     O meu nome e Eric Johann, neto de imigrantes da Segunda Guerra, casado, uma filhinha... Meu carro não costuma dar problemas, faço a manutenção relativamente dentro do prazo: troquei o óleo, completei o tanque, calibrei os pneus, verifiquei a água e o fluido de freio antes de viajar, tudo estava correto no modelo sedan 2014, é um bom carro, motor 1.8 - 16v, air bags, porta-malas espaçoso, um bom carro. Mas o problema não foi com o automóvel, foi à estrada.
     Notei, naquela tarde de rubro entardecer que os cinco quilômetros restantes para a BR-040 estavam demorando muito para chegar, e apesar das placas indicarem a velocidade máxima de oitenta quilômetros por hora, confesso, sem remorsos, estar a mais de noventa. Chequei o GPS e notei que esse estava inoperante, algum tipo de interferência assolava a sua tela plana de oito polegadas embaralhando as estradas. Dei alguns petelecos inúteis, desses que a gente ingenuamente acha que vai resolver problemas eletrônicos, mas claro, não adiantou, e ele travou de vez. O telefone celular também estava inútil sem sinal nenhum, o relógio marcava 15h38min e então percebi que estava parado, assim como o nível de bateria em 72%, eram 15h38min para sempre, bateria em 72% para sempre. Continuei, rodei por mais uma hora, mas não cheguei a lugar nenhum, não havia nem uma placa que me mostrasse onde eu estava nem para onde eu estava indo, nem um posto de gasolina, nem um daqueles restaurantes de beira de estrada local com seus deliciosos pães com linguiça e vinagrete e doces típicos, só o que havia eram morros verdejantes subindo e descendo infinitamente, às vezes deparava-me com precipícios profundos de um lado da estrada com seu fundo oculto pela mata, arvores solitária e cercas de arame farpado que nada pareciam deter. A estrada não é ruim, mas há muitas curvas e não tem acostamento, o asfalto é bom, salvo por um ou outro buraco que me surpreende de vez em quando. As placas se resumem a indicar à velocidade da pista e as curvas a frente: uma seta indica uma curva a esquerda, outra mostra uma curva acentuada a direita, sessenta quilômetros por hora, oitenta quilômetros por hora, diminua a velocidade, curva perigosa a duzentos metros... Cem metros... Cinquenta metros... Às vezes, dependendo da periculosidade da curva existem até aquelas plaquinhas pretas e amarelas com a contagem regressiva 8,7,6... Você fica tenso, 5,4,3... Nunca se sabe o que pode acontecer após uma contagem regressiva, 2,1. Você termina a curva e pensa que ela não parecia tão perigosa assim.
     Pensei então que talvez eu tivesse entrado em algum lugar errado, então fiz uma manobra proibida e perigosa para voltar. Mas nada mudou, a paisagem era a mesma, as placas eram as mesmas e até o por do sol (agora atrás de mim) permanecia o mesmo após quatro horas de viagem. Foi então que me desesperei. Parei o carro e desci, olhei de um lado a outro esperando ver algo que eu não vira até aquele momento, atravessei a estrada, voltei para o veiculo e novamente retornei rumo ao entardecer. Liguei o rádio tentando sintonizar alguma estação, mas só o que eu ouvia era o monótono som chiado do universo.  Um caminhão passou a toda por mim chacoalhando meu carro e levantando uma nuvem de poeira. Nos declives esses caminhoneiros vão bem rápidos, mas quando a estrada eleva-se o peso do caminhão faz com que eles caiam de velocidade drasticamente. Entrei no carro e arranquei atrás do caminhão, logo eu o alcancei, estas estradas são tão cheias de subidas e descidas quanto de curvas, e foi em uma dessas subidas, quando o caminhão chegou a monótonos trinta quilômetros por hora que o motorista deu seta para a direita, sinal que eu poderia ultrapassa-lo com duvidosa segurança, mas eu não queria ultrapassá-lo, eu queria informações (Onde eu estou? Como saio daqui?). Comecei a dar farol alto e o caminhoneiro me encarou pelo retrovisor, pôs a mão para fora e acenou para que eu o ultrapassasse após uma curva. Continuei a dar farol alto e a buzinar pedindo que ele parasse, mas então veio uma descida com uma larga curva para a direita seguida de uma longa reta, o caminhão chegou a noventa por hora, caiu para oitenta na reta e depois voltou a trinta em outra subida, essa mais curta, mas mais íngreme. Voltei a buzinar e a dar farol alto então o caminhoneiro com a mais tranquila de todas as ações tirou o braço para fora com uma pistola na mão acenando ameaçadoramente. Diminui a velocidade e vi o caminhão deslizar com um uivo na descida seguinte até sumir naquele entardecer sem sentido.
   Assim foram os dias seguintes. Rodando sem parar, o céu o mesmo, a estrada a mesma, as mesmas placas, os mesmos morros, a mesma vegetação. Meu combustível permanecia inalterado por mais que eu rodasse, assim como a quilometragem do meu carro, abateria do celular e a hora. Atrás de mim um coelho de pelúcia sorria ansioso por chegar em casa, é um presente para minha filha. Ela só tem quatro anos e eu já a amo mais do que tudo nesta vida...
     Tentei interceptar os raros carros que cruzavam por mim, dois na verdade, mas é claro que ninguém parava, as estradas são violentas com muitos assaltos e ninguém quer se arriscar. Mudei de tática, fiquei parado na beira da estrada com o capô aberto fingindo problema, fiquei mais de uma hora sem ver ninguém, a maioria parecia não me ver, os que viam passavam desconfiados e ignoravam meus pedidos de socorro, os caminhões quase me arrastavam no vácuo de seus monstros cheios de eixos.
    Ontem tomei uma decisão drástica, o primeiro caminhão que passasse por mim eu jogaria o carro na frente dele, não era um suicídio, era só um pedido de ajuda. O caminhão vinha carregado, segui em sua frente normalmente, na descida reduzi a velocidade, então quando ele se aproximou enfiei o pé no freio com toda a força e me agarrei ao volante, o carro rebolou por alguns instantes e eu vi o monstro ululante crescer no espelho retrovisor. O motorista tentou tirar o caminhão, mas o choque era inevitável... Acordei com um corte no supercílio e o air bag murcho na minha cara, olhei em volta e só vi a poeira que já baixava, esperei esperançoso por um motorista de cem quilos suado com um porrete na mão pronto para me dar uma surra, mas nada, não havia nada. A traseira do carro estava destruída, o meu porta-malas superespaçoso estava reduzido a destroços, minha mala preta de tecido impermeável e zíper reforçado espalhara minhas roupas pelo asfalto. Procurei em volta o caminhão, só havia as marca dos pneus maculando o asfalto com fúria e uma nuvem de poeira morro abaixo. Corri para a beira da estrada, era uma descida difícil que mais uma vez perdia-se numa escuridão verdejante, fiquei apavorado, talvez o caminhão tenha despencado no precipício, talvez tenha morrido ou esteja gravemente ferido, pensei em chamar ajuda pelo celular, foi minha primeira reação, não havia sinal naquela área, na verdade acho que nem havia aquela área. 15h38min, 72% de bateria, sem sinal. Eu estava preso em algum lugar em uma estrada infinita de um por do sol infinito... Esperei angustiado por um sinal do caminhoneiro, tentei descer até lá, mas escorreguei e só não caí naquela garganta de matas mistérios por pouco, agarrando-me desajeitadamente ao capim e em algumas raízes. Senti remorso por ter provocado tal acidente, por ter provocado a possível morte de um homem, mas talvez ele tenha escapado, talvez tenha se assustado e fugido com seu caminhão, não havia provas de sua queda... Confortei-me. Voltei e pensei que tudo tinha acabado não havia solução para mim. Na próxima Curva Perigosa a Esquerda vou arremessar meu carro rumo à morte, na próxima Curva Perigosa a Direita fecho os olhos e deixo rolar... Mas então eu vi o sorriso abobalhado do coelho e percebi que não poderia desistir, precisava achar a saída dessa estrada maldita, escapar dessa paralisia temporal. Liguei o carro e dei a ré, ele chacoalhou, engasgou, mas milagrosamente pegou como um carro zero, e então saí com meu porta malas despencando novamente rumo ao horizonte sangrento.
   “Mas espere! O que é aquilo?!” – Disse para mim mesmo, lá vinha um homem, um senhor muito simples de vestes sujas e rosto calejado, trazia consigo um burrico que chacoalhava a cabeça cansada assim como o seu dono, no mesmo ritmo. Parei o carro e este logo acenou levantando o trapo de boné que ocultava os ralos cabelos brancos. Cumprimentei e disse estar perdido, precisava chegar urgentemente a BR-040. Ele olhou para o horizonte e me disse:
   - Fica logo à frente, doutor, é só seguir a estrada. – Senti embrulhar o estômago e fui tomado por vertigens de desolação. Percebendo o meu mal estar o velho caipira perguntou se eu precisava de algo. Percebi então que eu não precisava de nada além de sair daquela estrada, eu rodava como um pião e nada me faltava; não acabava o combustível, não sentia fome ou sede, só um desejo humano de comer ou beber algo, mas a falta disso era suprida por um saco de biscoitos de polvilho e uma garrafa d’água que, adivinhem só, nunca acabavam, eu havia descoberto a cura para a fome no mundo. Guardem meu premio Nobel, eu só quero chegar em casa, tomar um banho, dar um beijo em minha esposa e ver o sorriso da minha filha ao ganhar o empoeirado coelho...
   Amavelmente aquele senhor me disse que morava a poucos metros dali, em uma casinha simples com sua esposa, mas que há àquela hora ela já o esperava da roça com um café quente e broas de fubá fresquinhas enquanto terminava o jantar, e completou dizendo ser um prazer se eu aceitasse tomar o café da arde com ele. “É claro!” – respondi. O que mais poderia eu fazer. Talvez a estrada de terra que levasse até sua casinha fosse uma saída para mim, talvez se eu saísse da via principal eu conseguiria escapar, vi naquele velho caipira toda a gentileza do mundo e um sinal para minha salvação, mas após três horas de caminhada, ele puxando incansável seu burrico, eu ao seu lado na segunda marcha a dez por hora, percebi que aquilo se arrastaria para sempre assim como àquela estrada, assim como aquele crepúsculo, e toda vez que eu perguntava se faltava muito para chegarmos ele dizia levantando os olhos e erguendo o dedo preguiçosamente: “É logo ali!”.
     Eu deixei o velho senhor para trás em sua caminhada sem fim. Pensei seriamente na ultima ideia que tive: aquela da Curva Perigosa, mas o meu mais novo amigo, o coelho, não me deixada realiza-la e assim prosseguíamos, rodando pelo asfalto cheio de curvas, serpenteando por morros em subidas e descidas inesgotáveis.
     Continuo percorrendo os infinitos cinco quilômetros restantes até a BR-040 esperando um dia que esse crepúsculo doentio se ponha de uma vez, que uma noite escura caia sobre mim, que o tempo volte a fluir e eu reencontre minha filha.  

     Mas então, ah! Uma estrela brilhou no céu.